quarta-feira, 22 de abril de 2015

De soldado a estratega


O meu corpo decide avançar mais rápido que o cérebro. 
8 horas e já estou de pé. Bolas, só precisava de acordar as 10.
Levanto-me revoltada e apercebo-me que estou esfomeada. Ligo a tv e as notícias contradizem-se na definição e não trazem nada de novo.
A casa parece é saída de um filme e o sol hoje está radiante. 
Observo a minha calma madura. 
Rejubilo com a sagacidade adquirida e a frieza de não estar em estado de stress profundo. 
A verdade é que ganhei a capacidade de ver de cima, de olhar para a minha vida de fora. 
A perspectiva mudou e muda também o resultado. Passei de soldado a estratega e de exasperada a calma.
Larguei as roupas sujas ensanguentadas e gastas, as botas grossas e ásperas, larguei a adrenalina da matança.
Envergo agora trajes solenes da cor das nuvens, o meu queixo levantou-se e nos pés envergo doces pantufas de algodão. Olho o mundo com calma de um ponto mais elevado que me permite ver mais longe. Já não é alta a voz mas o sorriso mantém-se. 
Chamam-me de louca e isso vai ser agora a minha maior vantagem. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Decrépita

O mundo parece estranho quando a vida entra em stand-by. 
É uma sensação estranha como se o tempo parasse e tudo à nossa volta estagnasse... 
O início: curiosidade. 
O desenrolar: desespero. 
O que fazer quando parece que a vida cobra tudo de uma vez? 
Quando as coisas que nos mantêm presos ao chão desaparecem, como se a gravidade se esfumasse.
Os sonhos são voláteis. A vida é um momento. 
Arrancaram-me o chão, as paredes e o tecto. 
Não sobrou nada. 
Fecho os olhos e volto atrás no tempo. 
Volto àquele momento, àquele momento exacto em que tudo fazia sentido. 
Pairam sobre mim as sombras da inexistência. 
Paira sobre mim o vazio e nele o vácuo.
Os músculos faciais parecem estar atraídos pelo centro da terra. Pareço constantemente triste.
Arrancaram-me vida. 
Arrancaram-me sonhos. 
Mas a verdade é que ninguém mos tirou. 
A verdade é que me de deixei levar por mim própria.
A vida esbofeteou-me. 
Não foi só uma vez. Foram várias. Uma e outra vez. Sim, sim, sim....
Mereço? Não faço ideia, se calhar sim. 
Mas dói, porra, dói. 
Abdiquei do mais puro dos sons para o infinito. 
Infligi só um pouco mais de dor em mim própria. 
Chega a um ponto em que parece que mereço. 
Quero voltar a ser eu.
E hoje pareço uma versão decrépita de mim própria.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Vazio

A casa parece vazia. 

Há um silêncio que se me entranha na alma. 
Há um riso que falta, uma voz que está ausente. 
Faltam-me as luzes acesas pela casa. 
Falta-me a confusão de cabos na sala.
A cama está gelada. 
Gelada e quieta. 
Sei que hoje vou passar a noite coberta. 
Sei que não vou perder nada durante a noite.
Porque me falta o riso antes de dormir. 
Porque me falta a tua voz.
Vou acordar de madrugada. 
Vou acordar em silêncio e numa casa arrumada. 
Sei que não vou ouvir o meu nome atravessar a casa  de manhã.
E o gelo da tua ausência vai ser muito mais sentido.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A vida no sítio certo

A vida nunca é como nos contos de fadas. 
Nunca o é porque nos contaram que o príncipe encantado irá aparecer um dia, que o pote de ouro chegará a nós no fim da licenciatura e porque os unicórnios são seres alados, raros e perfeitos.
Acomodámo-nos. 
Nunca pegámos em nós. 
Esquecemo-nos de lutar por aquilo que nos faz melhores e maiores.
O dia em que a tua alma decide que és a coisa mais importante do universo é o dia em que ela se encontra e se torna maior.
No dia em que pões tudo o que és e o que queres ser em primeiro lugar, os príncipes encantados encantam-se por ti.
O dia em que a perseguição pelo pote de ouro deixa de existir e arriscas seguir outro caminho que não o trilhado por todos, é quando encontramos aquele cume alto que te permite ver mais longe e decidir o teu caminho. 
E os unicórnios.. bem esses são os seres alados que te mantêm a imaginação activa e que te relembram que a imaginação é o dom mais importante que tens. 
A vida é única. 
A sede de viver faz dela a coisa mais preciosa que podes ostentar. 
Mete tudo o que queres ser e fazer na chama que brilha no teu coração e na ambição de querer ser melhor e chegar mais longe... o caminho, esse, abrir-se-à perante ti. 
Sê, de uma vez por todas, o unicórnio que és: um ser raro e único em aprendizagem e aperfeiçoamento constantes. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Incógnita

Revejo-te. 
Nas horas intermináveis e no descomplexo do tempo os teus lábios presenteiam-me com a sua memória. 
A carne e o espirito confundem-se num afastamento fingido. Não tenho alternativa. 
Imagino-te comigo e dou informações erradas ao cérebro. O coração queixa-se em retaliação.
Não sei como te irei encaixar na minha vida, também não acho que quero saber. 
A paz da tua existência é suficiente.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Em fogo



Há um mote.
Há um desejo reprimido, um momento rejeitado. 
Um momento de rejeição.
A ânsia reside na distância e no espaço que vai de mim a ti o tempo não dá tréguas. 
Há uma imagem...há muitas imagens. 
Desejos que viajam como se não existisse espaço.
Sentimentos básicos aparecem sob uma forma primária e a fome de nós é insaciável. 
Alterações de sistema como se houvessem alterações na rede e o cérebro decidisse entrar em colapso com excesso de informação...
Adormecer com o pensamento num lugar mais quente e acordar como se a noite não tivesse passado e o sono não me tivesse premiado. 
E no retorno ao elemento criador do mundo os nossos corpos ficam em fogo enquanto nas nossas almas a chama acende sensações desconhecidas.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Piano

Uma cadência de sons faz o meu sangue reagir a cada nota como se fosse um toque solto... um beijo... 
O coração acelera no vício da repetição.
Sinto um arrepio na espinha e cada centímetro da minha pele a eriçar-se. 
Há um sabor antigo no ar, 400 anos talvez...
No encaixe perfeito de dois pares de lábios há um outro mundo em que o meu olhar é sentido e cada variação da minha respiração é incitada. 
Os teus dedos trespassam e queimam... 
O toque é doce e lento.... 
A emoção é primária e grotesca. 
Esqueço-me de como respirar. Esqueço o controlo. 
Mais uma cadência de notas e não consigo decidir entre arrancar-te do piano ou continuar a ser arrastada na dança das tuas mãos...
Enrosco-me em ti e deixo a minha cabeça descansar no teu ombro. 
Fecho os olhos e o teu cheiro entra em mim... 
Não consigo parar...as notas estão agora ligadas à minha alma.