terça-feira, 2 de junho de 2015

Camaleão

Não sabia o que lhe chamar. 
Chamo-lhe coragem.
Coragem por ausência do medo. É isso. 
O medo desapareceu.
Digo às pessoas que cresci. Mas é mentira.
A verdade é que evoluí.
Crescer implica maturidade e quanto a essa deixo-a na discricionariedade. 
Porquê ser adulta quando não preciso. 
Só preciso de convencer os outros de que o sou. 
Convencer os outros... nada mais que isto. Não é o que fazemos todos os dias? 
Obecedecer a pressupostos sociais e esperar que não vejam que existimos.
"É preciso  coragem para vestir um determinado vestido".
É preciso coragem para nos infiltrarmos na multidão e os fazermos acreditar que somos um deles. 
É preciso coragem  para nos ambientarmos, adaptarmos, camuflarmos e minarmos os ecossistemas a partir dos neurónios. 
Enalteço-me com a brincadeira que é estar num mundo cinzento e só com infra-vermelhos ser perceptível o cintilar da minha existência. 

Eu não cresci. Evoluí. 
Evoluí para um ser complexo com capacidade para fazer relações e co-relações onde elas não existem, de gerar posturas de adaptação, de saber quando ser criança e quando ser idosa. 
Sinto poder e magia porque tomei consciência. 
Apercebi-me que sou uma versão optimizada de mim mesma, que sou muito diferente do que esperava ser mas 10 vezes melhor. Porque não sou perfeita. Porque me sinto confortável na minha imperfeição. 
"No strings". Todas as coisas que desejei ter não as tive. Mas tive melhor. 
Consegui mais porque olhei em volta e não apenas para onde me apontavam. 
Os outros cresceram, eu não. Recuso-me a crescer. 
Evoluí. 
E na evolução percebi a beleza da divergência.  

(T. aqui tens a minha opinião sobre crescer)





quarta-feira, 22 de abril de 2015

De soldado a estratega


O meu corpo decide avançar mais rápido que o cérebro.
8 horas e já estou de pé. Bolas, só precisava de acordar as 10.
Levanto-me revoltada e apercebo-me que estou esfomeada. Ligo a tv e as notícias contradizem-se na definição e não trazem nada de novo.
A casa parece saída de um filme e o sol hoje está radiante. 
Observo a minha calma madura. 
Rejubilo com a sagacidade adquirida e a frieza de não estar em estado de stress profundo. 
A verdade é que ganhei a capacidade de ver de cima, de olhar para a minha vida de fora. 
A perspectiva mudou e muda também o resultado. Passei de soldado a estratega e de exasperada a calma.
Larguei as roupas sujas ensanguentadas e gastas, as botas grossas e ásperas, larguei a adrenalina da matança.
Envergo agora trajes solenes da cor das nuvens, o meu queixo levantou-se e nos pés envergo doces pantufas de algodão. Olho o mundo com calma de um ponto mais elevado que me permite ver mais longe. Já não é alta a voz mas o sorriso mantém-se. 
Chamam-me de louca e isso vai ser agora a minha maior vantagem. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Decrépita

O mundo parece estranho quando a vida entra em stand-by. 
É uma sensação estranha como se o tempo parasse e tudo à nossa volta estagnasse... 
O início: curiosidade. 
O desenrolar: desespero. 
O que fazer quando parece que a vida cobra tudo de uma vez? 
Quando as coisas que nos mantêm presos ao chão desaparecem, como se a gravidade se esfumasse.
Os sonhos são voláteis. A vida é um momento. 
Arrancaram-me o chão, as paredes e o tecto. 
Não sobrou nada. 
Fecho os olhos e volto atrás no tempo. 
Volto àquele momento, àquele momento exacto em que tudo fazia sentido. 
Pairam sobre mim as sombras da inexistência. 
Paira sobre mim o vazio e nele o vácuo.
Os músculos faciais parecem estar atraídos pelo centro da terra. Pareço constantemente triste.
Arrancaram-me vida. 
Arrancaram-me sonhos. 
Mas a verdade é que ninguém mos tirou. 
A verdade é que me de deixei levar por mim própria.
A vida esbofeteou-me. 
Não foi só uma vez. Foram várias. Uma e outra vez. Sim, sim, sim....
Mereço? Não faço ideia, se calhar sim. 
Mas dói, porra, dói. 
Abdiquei do mais puro dos sons para o infinito. 
Infligi só um pouco mais de dor em mim própria. 
Chega a um ponto em que parece que mereço. 
Quero voltar a ser eu.
E hoje pareço uma versão decrépita de mim própria.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Vazio

A casa parece vazia. 

Há um silêncio que se me entranha na alma. 
Há um riso que falta, uma voz que está ausente. 
Faltam-me as luzes acesas pela casa. 
Falta-me a confusão de cabos na sala.
A cama está gelada. 
Gelada e quieta. 
Sei que hoje vou passar a noite coberta. 
Sei que não vou perder nada durante a noite.
Porque me falta o riso antes de dormir. 
Porque me falta a tua voz.
Vou acordar de madrugada. 
Vou acordar em silêncio e numa casa arrumada. 
Sei que não vou ouvir o meu nome atravessar a casa  de manhã.
E o gelo da tua ausência vai ser muito mais sentida.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A vida no sítio certo

A vida nunca é como nos contos de fadas. 
Nunca o é porque nos contaram que o príncipe encantado irá aparecer um dia, que o pote de ouro chegará a nós no fim da licenciatura e porque os unicórnios são seres alados, raros e perfeitos.
Acomodámo-nos. 
Nunca pegámos em nós. 
Esquecemo-nos de lutar por aquilo que nos faz melhores e maiores.
O dia em que a tua alma decide que és a coisa mais importante do universo é o dia em que ela se encontra e se torna maior.
No dia em que pões tudo o que és e o que queres ser em primeiro lugar, os príncipes encantados encantam-se por ti.
O dia em que a perseguição pelo pote de ouro deixa de existir e arriscas seguir outro caminho que não o trilhado por todos, é quando encontramos aquele cume alto que te permite ver mais longe e decidir o teu caminho. 
E os unicórnios.. bem esses são os seres alados que te mantêm a imaginação activa e que te relembram que a imaginação é o dom mais importante que tens. 
A vida é única. 
A sede de viver faz dela a coisa mais preciosa que podes ostentar. 
Mete tudo o que queres ser e fazer na chama que brilha no teu coração e na ambição de querer ser melhor e chegar mais longe... o caminho, esse, abrir-se-à perante ti. 
Sê, de uma vez por todas, o unicórnio que és: um ser raro e único em aprendizagem e aperfeiçoamento constantes. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Incógnita

Revejo-te. 
Nas horas intermináveis e no descomplexo do tempo os teus lábios presenteiam-me com a sua memória. 
A carne e o espirito confundem-se num afastamento fingido. Não tenho alternativa. 
Imagino-te comigo e dou informações erradas ao cérebro. O coração queixa-se em retaliação.
Não sei como te irei encaixar na minha vida, também não acho que quero saber. 
A paz da tua existência é suficiente.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Em fogo



Há um mote.
Há um desejo reprimido, um momento rejeitado. 
Um momento de rejeição.
A ânsia reside na distância e no espaço que vai de mim a ti o tempo não dá tréguas. 
Há uma imagem...há muitas imagens. 
Desejos que viajam como se não existisse espaço.
Sentimentos básicos aparecem sob uma forma primária e a fome de nós é insaciável. 
Alterações de sistema como se houvessem alterações na rede e o cérebro decidisse entrar em colapso com excesso de informação...
Adormecer com o pensamento num lugar mais quente e acordar como se a noite não tivesse passado e o sono não me tivesse premiado. 
E no retorno ao elemento criador do mundo os nossos corpos ficam em fogo enquanto nas nossas almas a chama acende sensações desconhecidas.